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A próxima internet não vai ser feita para você

Marcel Pilipo

·

6 min de leitura

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· Atualizado em

Malha densa de filamentos e nós azuis brilhando sobre fundo quase preto, com um único nó âmbar aceso no meio deles
Um nó quente no meio de milhares de nós frios. Imagem gerada no Midjourney.

RESPOSTA CURTA

Máquinas já respondem por 57,5% das requisições HTTP a conteúdo na web, contra 42,5% de humanos, segundo medição da Cloudflare Radar divulgada por Matthew Prince em 3 de junho de 2026. Para quem trabalha com marketing, a consequência prática é uma inversão de ordem: a página precisa ser legível por um agente antes de ser bonita para uma pessoa. Preço, prazo, política de troca e condição comercial em texto, não em imagem e não presos atrás de JavaScript. A própria Cloudflare publicou um verificador gratuito para medir isso em qualquer site, o Is Your Site Agent-Ready?

Em 3 de junho de 2026, a Cloudflare mediu 57,5% das requisições a conteúdo na web vindas de máquina. Humanos ficaram com 42,5%.

Quem divulgou foi o Matthew Prince, CEO da empresa. Ele tinha previsto publicamente que essa virada só aconteceria em 2027. O comentário dele ao publicar o número foi que aconteceu mais rápido do que ele previa.

Eu passei vinte anos otimizando para o olho humano.

Toda a lógica que aprendi e que ensinei parte da mesma premissa: existe uma pessoa do outro lado, ela tem pouco tempo, e o trabalho é ganhar os três segundos dela. Foi assim que montei time, briefei campanha, escolhi criativo e defendi verba. O user-centric não está errado. Ele está deixando de ser suficiente.

O que mudou não foi a ferramenta, foi a unidade

Acompanhei várias “próximas grandes coisas” da internet. Algumas mudaram o jogo, outras sumiram no ano seguinte. O que sobrou de padrão não tem nada a ver com plataforma. Tem a ver com qual é a unidade básica da internet em cada época.

Nos anos 1990, a unidade era a página. Você entrava para buscar informação.

Depois virou o perfil. Fóruns, blogs, Orkut, Facebook, Twitter, e toda a transformação social da Web 2.0.

Depois virou o conteúdo. O feed passou a decidir o que vemos, criadores passaram a disputar atenção e o algoritmo passou a influenciar comportamento.

Agora começa a ser o agente.

A lógica até aqui era: eu, ferramenta, resultado. Eu pesquiso, eu comparo, eu escolho.

A lógica que começa a valer é: eu, objetivo, agente, ações, resultado.

Quando eu digo “organize esta viagem dentro deste orçamento”, não sou eu que abro dez sites, monto planilha e comparo preço. É o agente, dentro das permissões que eu der. O prompt deixa de ser a habilidade principal. Delegar passa a ser.

E aí a pergunta do marketing envelhece. Ela era “como faço minha empresa aparecer para o consumidor”. Ela passa a ser “como faço minha empresa ser compreendida, escolhida e confiável para o agente que representa o consumidor”.

O que eu faria na segunda-feira

Não tenho resposta definitiva sobre onde isso termina, e acho cedo para alguém ter. Mas tenho quatro decisões que eu tomaria esta semana, todas dentro do que um time de marketing consegue fazer sem aprovação de conselho.

1. Medir o próprio site com os olhos de um agente. A Cloudflare colocou no ar um verificador gratuito, o Is Your Site Agent-Ready?. Você joga o domínio e ele devolve uma nota olhando cinco frentes: descoberta (robots.txt, sitemap, DNS-AID), acesso ao conteúdo (negociação de Markdown), controle de bots (regras de IA, Content Signals, Web Bot Auth), protocolo (MCP, Agent Skills, WebMCP, OAuth) e comércio (x402, MPP, UCP, ACP). Leva menos de um minuto. Depois disso, desligue o JavaScript e leia a sua página de produto na mão: se preço, prazo de entrega, política de troca e condição de pagamento não aparecem em texto, um agente não vai encontrar.

2. Separar o tráfego de máquina no log. O GA4 não mostra isso, porque depende de JavaScript e a maior parte dos agentes não executa. O número está no log do servidor ou no painel do seu CDN. Antes de decidir qualquer coisa, saiba qual é a sua porcentagem.

3. Escrever a resposta antes do artigo. Todo conteúdo passa a precisar de um parágrafo que responde à pergunta de forma completa, verificável e citável, no topo. É o que um agente extrai. O resto do texto é para a pessoa que decidiu ler.

4. Decidir a política de acesso, em vez de herdá-la. Bloquear crawler de IA no atacado virou default em muita empresa desde 2025. Só que bloquear tudo é fechar o canal novo junto com o problema antigo. A decisão é caso a caso, e ela é sua, não do time de infra.

Por que eu acredito nisso

Entre 2019 e 2021 eu operei uma estrutura com mais de 12 mil campanhas de mídia paga simultâneas, dentro de uma operação que fez R$ 1 bilhão de GMV anual.

Nenhum ser humano lia aquilo inteiro. Nem eu, nem o time. A operação já era máquina falando com máquina, e a única coisa que decidia se ela funcionava era quão bem estruturada estava a informação que entrava.

O que está acontecendo agora é isso, do lado de fora da empresa. E do lado de fora não existe controle de campanha. Existe o que você deixou legível.

A parte que ninguém resolveu ainda

Se esses agentes ganharem memória, contexto, histórico e autonomia, eles deixam de ser ferramenta e viram camada permanente da vida digital de alguém.

Quem controla a memória do seu agente. Quem decide o que ele pode fazer. Quem responde quando ele decide errado.

Não sei. E desconfio de quem já sabe.

A primeira internet conectou computadores. A segunda conectou pessoas. A próxima conecta agentes. Talvez a seguinte conecte inteligência ao mundo físico.

Só que nada disso é motivo para esperar. O item 1 daquela lista leva menos de um minuto e não depende de ninguém.

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Fontes

  • Cloudflare Radar, tráfego automatizado em 57,5% contra 42,5% humano, divulgado por Matthew Prince em 3 de junho de 2026: radar.cloudflare.com
  • Cloudflare, Is Your Site Agent-Ready?, verificador gratuito de preparação de sites para agentes
  • Cloudflare Radar 2025 Year in Review, 15 de dezembro de 2025: blog.cloudflare.com

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